O audiovisual que todos queremos

O Globo-O Globo

O Globo


9 Feb 2018


CHRISTIAN DE CASTRO Christian de Castro é diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema


Omercado audiovisual brasileiro vai muito bem, obrigado. Com um crescimento médio de 9% ao ano, mesmo num período de crise econômica, o setor nunca viveu um cenário tão favorável à sua expansão e desenvolvimento. Basta dizer que, em 2016, sua participação no PIB nacional chegou a 0,46% — maior, por exemplo, que a da indústria farmacêutica.


Isso é fruto do trabalho e do talento dos profissionais e da política pública implementada e continuamente aprimorada desde a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Os resultados dessa parceria são evidentes na ocupação crescente das telas de cinema e da programação dos canais de TV paga por conteúdos nacionais diversificados e de qualidade.


Todos os avanços realizados até aqui são conquistas da sociedade que não admitem retrocessos. Mas ainda há muito a ser feito: é possível e necessário avançar mais, com menos burocracia e mais liberdade, transparência, diálogo, eficiência e participação. Se o Estado e os agentes privados caminharem juntos rumo à construção de uma indústria sólida e dinâmica, com visão de mercado e uso estratégico da tecnologia, o Brasil tem tudo para se tornar um dos cinco maiores mercados do mundo em dez anos.


Num ambiente cada vez mais dinâmico, é preciso abraçar as novas oportunidades e desafios que surgem quase diariamente, em razão das aceleradas inovações tecnológicas, da multiplicação de janelas e plataformas de exibição e da própria mudança de comportamento do consumidor de conteúdos audiovisuais.


Nesse sentido, o papel da Ancine e de outros órgãos ligados ao Ministério da Cultura será, cada vez mais, o de indutor do desenvolvimento equilibrado do mercado, com ênfase na atração de investimentos privados, mas sem tirar o foco de diretrizes estratégicas, como a regionalização, a promoção da diversidade, o estímulo à inovação e o combate à pirataria.


A agenda é simples: desburocratizar, simplificar, dinamizar e inovar. Não é aceitável, por exemplo, que, por excesso de exigências e entraves burocráticos, menos da metade dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) — a principal fonte de financiamento do setor — tenha sido efetivamente gasta. Dos R$ 4,2 bilhões destinados ao FSA desde a sua criação, apenas R$ 1,5 bilhão foi desembolsado.


É urgente e necessária maior agilidade na execução desses recursos, reduzindo prazos e simplificando processos, de forma que mais conteúdos nacionais encontrem mais rapidamente o seu público, nas diferentes janelas de exibição. Para que isso aconteça, o FSA precisa investir também em infraestrutura e capacitação, no fortalecimento das distribuidoras e na expansão do parque exibidor, e não apenas na produção. Tudo isso combinando mecanismos automáticos e seletivos, reembolsáveis e não reembolsáveis.


Duas coisas são fundamentais: em primeiro lugar, o entendimento de que, como qualquer outro setor da economia, o audiovisual depende da existência de empresas bem estruturadas financeiramente, com visão de longo prazo e pensamento de carteira de projetos. É preciso combinar a paixão pelo que se faz, comum a todos os profissionais do setor, com uma política de capacitação de empreendedores voltada a resultados e à eficiência econômica.


Num círculo virtuoso, isso irá gerar mais empregos, mais receitas, mais inclusão, mais investimentos e o surgimento incessante de novos empreendedores, fortalecendo toda a cadeia de valor do audiovisual. Isso também se aplica à indústria de games, ainda incipiente no Brasil, mas com capacidade exponencial de crescimento e geração de emprego e renda.


Em segundo lugar, é necessária a união, o entendimento de que é preciso deixar de lado diferenças e disputas políticas menores, em benefício de um objetivo comum: a consolidação de uma indústria audiovisual saudável e bem estruturada, com espaço para todos. No passado, outros momentos promissores acabaram sendo comprometidos pela intransigência de pequenos grupos de interesse. Assim, esforços para a construção de políticas públicas voltadas para o crescimento sustentado do setor se perderam em função de disputas fratricidas por espaço político. O filme da desunião nunca acaba bem: o momento pede conciliação, não conflito.


Não é aceitável que, por excesso de exigências e entraves burocráticos, menos da metade dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual tenha sido efetivamente gasta


 


 

Voltar