Correspondente do SBT fala sobre dificuldades de cobertura no Afeganistão

PORTAL IMPRENSA

Leandro Haberli | 14/09/2021 18:17


Correspondente internacional do SBT, o jornalista mineiro Sérgio Utsch está no Afeganistão desde o dia 10 de setembro. Ele chegou ao país para cobrir pelo SBT News a posse do novo governo afegão, realizada no dia 11. Depois de uma semana no Paquistão, Sérgio cruzou a fronteira por terra, em Torkham. Recebido por homens fortemente armados, foi levado para uma sala por um agente do serviço de inteligência do Talibã, onde havia uma equipe da rede de TV japonesa NHK.


 


Crédito:Reprodução



 


Sérgio Utsch (à direita) em solo afegão: rajadas de metralhadora e tensão 



"As dificuldades na transição de milícia armada para governo de um país de quase 40 milhões de habitantes, mais da metade abaixo da linha da pobreza, são muito evidentes. Há muita desinformação sobre a documentação exigida pra se entrar no país, um pouco mais difícil no caso de jornalistas. Nas cidades e nas estradas, não há guardas de trânsito nem regras. Motos voltaram às ruas, depois de terem sido proibidas pelo último governo pra evitar que o Talibã as usasse pra promover ataques", descreveu o jornalista em reportagem para o SBT News.



Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, concedida por email diretamente da capital afegã, Sérgio falou sobre os riscos enfrentados para a realização desse marcante trabalho jornalístico.



Portal IMPRENSA Como foi a preparação para a viagem?



Sérgio Utsch - A viagem ao Afeganistão era apenas uma possibilidade quando apresentei o projeto pra irmos ao Paquistão. Não disse nada no início pra não assustar muito a chefia, mas eu já estava fazendo contatos no Afeganistão que se intensificaram quando eu cheguei a Islamabad e segui pra Peshawar, que fica perto da fronteira. O mesmo contato do Paquistão me arrumou uma equipe no Afeganistão, sem cinegrafista, mas com tradutor/produtor e intérprete, ambos afegãos, o que foi muito benéfico. Os dois já me esperava do outro lado da fronteira quando eu atravessei na última sexta-feira e me ajudaram muito em Cabul. 



Portal IMPRENSA - Como têm sido as negociações com as atuais autoridades do pais para conseguir trabalhar em segurança?



Sérgio Utsch - Não existe muita negociação com o Talibã. Existe a determinação do grupo que você escolhe cumprir ou não. A última que tivemos é que se cobrirmos qualquer manifestação considerada ilegal, ou seja, contrária ao Talibã, nós poderíamos ser agredidos, presos e ter equipamentos confiscados. Nós temos uma autorização em escrito do Ministério da Informação do país pra trabalhar em Cabul mas, ainda assim, fomos convidados a nos retirar de vários lugares. 



Portal IMPRENSA - Quais as principais dificuldades para chegar no Afeganistão?



Sérgio Utsch - A primeira dificuldade é a burocracia. Conseguir o visto para o Afeganistão foi relativamente rápido. Mas a Embaixada emitiu um alerta e, no mesmo dia, eu fui procurado por agentes do serviço de inteligência do Paquistão. Acabei me encontrando e conversando com eles dois dias depois, antes mesmo de bater o martelo se viríamos ou não. Além do visto, é preciso um documento do Ministério da Justiça do Paquistão, liberando a passagem pela fronteira. Passei por três entrevistas e muitas checagens de documentos até passar por um imenso corredor de grades pra chegar a solo afegão. Logo de cara, fui recebido por um sujeito que se apresentou como do serviço de inteligência deles. Fui levado pra uma sala, onde já estava uma equipe da TV japonesa e onde chegaria mais tarde uma equipe paquistanesa. Ouvimos rajadas de metralhadora do lado de fora. Os Talibãs insistiam que eu deveria ter um documento que, em tese, eu só conseguiria no Ministério da Informação em Cabul, a tal carta com autorização pra trabalhar. Meu fixer/tradutor conseguiu que mandassem por whatsapp e fomos liberados depois de uma hora. 



Portal IMPRENSA - Pretende ficar só em Cabul? Ou realizar pautas em outras cidades?



Sérgio Utsch - Gostaria de ir a outras cidades, mas a nossa autorização é pra gravar apenas em Cabul. Além disso, o combinado com o SBT é que ficaria apenas 5 dias. A emissora quis diminuir ao máximo a nossa permanência no Afeganistão por questões de segurança. Eu tenho uma equipe com quem encontro todos os dias, mas estou sozinho aqui. 



Portal IMPRENSA - O que familiares e amigos disseram a respeito de sua ida ao Afeganistão? Tem temido por sua segurança? 



Sérgio Utsch - Preferi avisar a família só quando estivesse aqui pra reduzir um pouco o drama. É difícil. É perigoso. Tem riscos envolvidos. Mas não é a primeira cobertura do tipo que faço. Já cobri quatro conflitos armados (Israel/Gaza, Ucrânia, Síria e Iraque), onde havia batalhas em andamento. Aqui no Afeganistão, está tudo tomado pelo Talibã. Só há disputa mesmo na região do Vale do Panjshir. Temo pela minha segurança, mas estou pronto pra assumir e administrar os riscos.



Veja abaixo uma das matérias realizadas pelo jornalista para o SBT no Afeganistão:


 


 

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