Temporada de 'Veep' lembra da falta de humor político na TV brasileira

Folha de S. Paulo-Ilustrada

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Divulgação HBO


 

 



Julia Louis-Dreyfus em cena da série 'Veep' da HBO



Vice-presidente dos Estados Unidos, Selina Meyer sofreu durante as três primeiras temporadas de "Veep" com a indiferença geral ao seu cargo irrelevante.


As trapalhadas em que se meteu por culpa de seu staff incompetente e as gafes que cometeu por excesso de sinceridade, somados ao show de interpretação de Julia Louis-Dreyfus, transformaram a série num dos biscoitos finos mais queridos e admirados (fora os prêmios) na indústria de TV americana.


Por conta da renúncia do presidente, Selina Meyer assumiu o comando do país em 2015. No novo cargo, o tom das piadas e do deboche com o establishment político subiu mais ainda. Até que, ao fim da temporada de 2016, encerrado o seu mandato-tampão, a primeira mulher a presidir os EUA não conseguiu a reeleição (meses depois, no mundo real, Hillary Clinton perdeu a disputa para Donald Trump).


Ao estrear a sexta temporada neste domingo, às 23h30, na "HBO", "Veep" mostra Selina Meyer na condição de ex-presidente. Os seus problemas agora são conseguir doadores para manter um escritório político, escrever um livro de memórias, criar uma fundação, apoiar campanhas politicamente corretas e, quem sabe, voltar a disputar a presidência dos EUA.


O mau humor da ex-presidente está batendo no teto. Depois de uma hora dentro do carro para chegar ao escritório, no Bronx, ela reclama: "Esse é o pior lugar em que já enfiaram um ex-presidente, incluindo o caixão de JFK".


Com exceção do fiel assessor pessoal, Gary Walsh (Tony Hale), e do chefe de gabinete Richard Splett (Sam Richardson), que permanecem com ela, para a nossa diversão, todos os demais integrantes do seu staff presidencial estão agora criando problemas em outros trabalhos.


Um dos grandes trunfos de "Veep" nestes anos todos foi jamais ter identificado claramente a filiação partidária de Selina Meyer. No ambiente polarizado entre democratas e republicanos de Washington, o criador da série, Armando Iannucci, optou pela ambiguidade.


O atual showrunner, David Mandel, explicou esta semana ao "New York Times": "Iannucci evitou muito identificar qualquer partido. Se você tenta seguir as posições de Selina, ela está em todo lugar. Ela pega coisas dos dois lados. Em Washington, os dois lados acham que Selina e as pessoas que trabalham para ela, em especial os mais incompetentes, são do outro lado".


Outro segredo de "Veep" é evitar referências muito específicas e localizadas, que possam datar a série. "O programa nunca foi sobre a política atual; é sobre política em geral. É sobre poder", diz Mandel, cujo currículo inclui ter sido produtor-executivo de "Curb Your Entusiasm" e roteirista de "Seinfeld".


O que falta para termos uma série como "Veep" na TV brasileira? Apenas coragem de rir abertamente, sem preconceitos ou preferências, do nosso universo político.


O humor brasileiro tem se aventurado com timidez por este caminho. Nos últimos anos, abundaram imitações simplórias e, muitas vezes, toscas de Lula e Dilma, além de um ou outro esquete bem-feito em programas semanais, como o "Zorra", mas nenhum investimento maior em dramaturgia de qualidade sobre os personagens de Brasília.


 


A "lista de Facchin", na sua abrangência pluripartidária, faz um grande favor aos escritores de humor brasileiros. A realidade oferece matéria-prima de qualidade para quem quiser escrever uma boa série -drama ou comédia- sobre o mundo político nacional sem precisar tomar partido de qualquer lado.

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