Slow Media: o movimento que propõe um detox de informação

Meio & Mensagem-Mídia

Inspirado em valores similares ao do Slow Food e Slow Fashion, o movimento propõe o controle sobre a experiência digital


Karina Balan Julio
12 de junho de 2018 - 7h00


Quantas vezes você já acessou ao seu feed do Instagram, Facebook ou seu email hoje? Ao longo do dia, é provável que desbloqueie a tela do celular pelo menos 78 vezes, se estiver dentro da média diária apontada pela Deloitte entre usuários brasileiros. A compulsão tecnológica e o medo de ficar de fora dos acontecimentos é um fenômeno contemporâneo, consequência dos diversos feeds de notícia e fontes de informação.


Como uma oposição ao ritmo incansável de consumo e produção de conteúdo, o manifesto Slow Media – inspirado em movimentos como Slow Food e Slow Fashion -, propõe um processo mais consciente de produção e consumo de conteúdo. Embora não tão organizado como seus pares do movimento Slow, o movimento também vem da crítica à cultura da velocidade e produtividade. Seus valores já refletem transformações entre veículos de mídia, marcas ligadas ao universo tecnológico e o público mais qualificado em busca de um “detox digital”. Dos maiores veículos até iniciativas jornalísticas independentes, o conteúdo aprofundado e a revisão da presença digital nas redes sociais ganham força.


Na semana passada, a Apple anunciou que seu novo sistema operacional permitirá ao usuário monitorar o tempo gasto no iPhone e em aplicações como o Facebook. Já a Folha de S. Paulo deixou de veicular há quatro meses seu conteúdo na rede social. No mercado independente, projetos como o portal Nexo e a Newsletter Meio respondem a uma demanda por conteúdo essencial que vai além do hard news.


“O Slow é a antítese dos excessos, tem a ver com filtragem de informação e em escolher o que é essencial e confiável. Os nichos ampliam as possibilidades para formatos lentos, o que não significa que as pessoas não vão consumir, mas que são mais seletivas. Mesmo sendo super consumidoras de informação, dialogam menos com o excesso”, avalia Michelle Prazeres, mestre em comunicação e semiótica pela PUC-SP e idealizadora da consultoria Desacelera SP.


Para Eduardo Tessler, jornalista e consultor do Mídia Mundo, o que as iniciativas bem-sucedidas baseadas no “jornalismo lento” têm feito é criar modelos de negócios em torno de comunidades com interesses semelhantes. “É muito fácil criar audiência inútil em meios digitais. Basta apostar em crimes, em celebridades, fotos sensuais ou no bizarro, nos cachorros de duas cabeças. Mas essa audiência vem pelo fato, não pelo meio. Vai visitar aquele site uma única vez na vida. Que valor ele tem? Nenhum”, argumenta.


Neste contexto, veículos precisam construir uma linguagem e credibilidade tão significativos a ponto de o consumidor, se quiser, escolher consumir apenas o seu conteúdo diariamente. “Hoje em dia as pessoas assinam suas newsletters e acreditam que aquelas informações são o suficiente para aquele dia. Não ficam entrando em todos os portais para saber o que está acontecendo”, opina Michelle.


Esta oscilação entre conteúdo hard news e outros mais calcados em “jornalismo lento”, contudo, sempre fez parte do mercado midiático, na avaliação de Eduardo. Ele acredita os meios irão se adaptar cada um à sua maneira às demandas por conteúdo aprofundado e notícias factuais.


“Durante anos o rádio era o fast, com notícias em tempo real, e o jornal o slow, para aprofundar. Depois os jornais conseguiram reduzir o tempo de produção e embarcaram no fast, deixando para as revistas semanais o slow. Hoje o que se verifica na Europa, por exemplo, é que redes sociais se transformaram em fast, alguns sites são de notícias (fast), outros de análises (slow). E os jornais viraram slow outra vez”, conta.


Às vezes, menos é mais


Para as marcas, que cada vez mais buscam se posicionar como publishers, ter uma frequência consciente para não enjoar o usuário e não “floodar” a timeline também é importante. Mesmo que estar presente o tempo inteiro nas redes sociais seja considerado normal, uma presença digital mais consciente pode inclusive ajudar a dar mais clareza sobre o posicionamento de uma marca, na opinião de Michelle.


“Há uma certa pressão de que uma marca deve estar nas redes sociais o tempo inteiro. Minha ideia é de que cada empresa deve demarcar uma velocidade que é boa para ela, mesmo que não poste tanto ou não impulsione tantos conteúdos”, afirma. Através de sua consultoria, Michelle dá oficinas para empresas de forma a ajudar na construção de um posicionamento inspirado em valores que não necessariamente respondem à lógica frenética da internet.


Quando a informação vira um vício


A ansiedade para se estar por dentro de tudo, ou até mesmo o vício em informação, são fenômenos analisados inclusive por pesquisadores de saúde. Em São Paulo, o Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso da USP criou um tratamento específico para ajudar os “dependentes de internet”.


A Dra. Dora Sampaio Góes, psicóloga e coordenadora do núcleo, explica que este impulso é particularmente comum entre adolescentes e jovens. O diagnóstico é feito pela análise de quadros de ansiedade e depressão, e também de hábitos digitais.


“As pessoas mais dependentes não têm outras fontes de prazer fora do mundo online e não se reconhecem em outros contextos. Vemos também que a tolerância para a frustração é muito menor, já que tudo que o usuário precisa tem que estar na mão dele, e por isso o tempo de espera é menor”, conta a psicóloga. Um dos sintomas da dependência de internet é a fobia social, quadros depressivos e a tendência a checar o celular a cada instante – mesmo após terem acabado de mexer no aparelho.


Apesar do tratamento proposto pela USP, a dependência de internet ainda não foi reconhecida oficialmente como um transtorno mental pelos órgãos de psicologia internacionais.


 


 

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