‘É preciso alfabetizar midiaticamente a criança’

O Globo-Página 2

ENTREVISTA A: JAN NIKLAS jan.niklas@infoglobo.com.br


Jacqueline Sánchez Carrero, educadora Produtora audiovisual venezuelana veio ao Rio participar do Festival Internacional Pequeno Cineasta, no Instituto Cervantes


 


“Nasci na Venezuela, onde comecei fazendo produções infantis na televisão. Sempre me perguntava por que fazíamos os programas sem consultar muito as crianças. Hoje, moro na Espanha, onde criei o ‘Taller Telekids’, que forma pequenos diretores estimulando uma visão crítica do audiovisual.”


Conte algo que não sei.


Quanto mais experiência na produção audiovisual puder desenvolver uma criança, mais crítica diante dos conteúdos ela será. Aprender fazendo é a forma mais clara de explicar como se pode manipular imagens e mudar seu sentido. Mostrar aos pequenos como se faz um vídeo faz com que entendam como podem ser manipulados como espectadores.


Assim como se ensina a ler textos, deve-se ensinar a ler imagens?


Exatamente. É preciso alfabetizar midiaticamente a criança. O meio audiovisual é uma indústria onde há interesses em jogo. Ela deve aprender a ver criticamente distintos gêneros: desenhos animados, séries de televisão, filmes, telejornais ou publicidade. Nós mostramos como são feitos cada um desses gêneros e os interesses envolvidos, quem realmente os faz. A primeira coisa que dizemos às crianças é que aquilo que estão vendo não é uma verdade absoluta, mas sim algo construído por pessoas, sejam profissionais, empresários ou políticos.


Como fazer isso?


No “Taller Telekids”, crianças entre 8 e 12 anos aprendem a escrever roteiros, usar a câmera, conhecem detalhes de som e iluminação, além de edição. Isso faz com que conheçam o processo por trás das câmeras. Vamos desvelando pouco a pouco esses mecanismos que constroem significados nos filmes para que elas criem leituras inteligentes dos conteúdos e enxerguem além da superfície. E tudo isso de forma lúdica, a partir de ideias dos próprios alunos.


E que histórias essas crianças costumam transformar em filmes?


Assim como os adultos, elas tendem a acessar sua memória e a reproduzirem coisas parecidas com as quais já viveram. São histórias de suas famílias, de seus amigos. Os maiores falam mais da fase escolar, de ciberbullying. Ultimamente, também temos visto muitos temas ligados à violência a imigrantes, o que mostra o quanto eles são antenados e se preocupam com o que está acontecendo com os outros, não somente com seu próprio mundo. As crianças se dão conta de que ali existe um problema, mesmo que não saibam muito bem o que é. Além disso, gostam muito de pensar em tecnologia e coisas fantásticas.


Que tipo de habilidades elas desenvolvem numa produção audiovisual?


Além da parte técnica e da parte crítica, elas aprendem a desenvolver um bom gosto no mundo do vídeo; a desfrutar da fotografia, da música, dos efeitos, enfim, tudo o que envolve a apreciação cinematográfica. E aprendem a exercitar o valor da paciência. Crianças costumam ser imediatistas, ainda mais hoje em dia, querem tudo agora. No “Taller Telekids”, nós não terminamos o filme até que a produção esteja completa e toda a equipe convencida de que finalizou a história. Dessa forma, elas aprendem a trabalhar em equipe, a ser solidárias e a se colocar no papel do outro.


E o que adultos podem aprender com os filmes feitos por crianças?


 


Elas trazem para nós valores como a verdade, a sinceridade e a simplicidade. Podemos aprender de uma maneira simples como uma boa ideia é realizada em um filme. Elas apontam soluções onde adultos muitas vezes enxergam apenas impedimentos e problemas.

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