Desertos de notícias dominam mais da metade dos municípios brasileiros

Folha de S. Paulo-Poder

Segundo Atlas da Notícia, outros 30% têm apenas um ou dois veículos de comunicação


    22.nov.2018 às 16h00


    Rodrigo Borges Delfim


São Paulo


Ter notícias da própria cidade pode ser algo corriqueiro para quem vive nos grandes centros urbanos. Mas 51% dos municípios brasileiros, que abrigam 30 milhões de pessoas —15% da população nacional— estão nos chamados "desertos da notícia", por não contarem com nenhum veículo jornalístico local.


Esse é um dos dados levantados pelo Atlas da Notícia, estudo realizado pelo Projor (Instituto para o Desenvolvimento de Jornalismo), mantido pelo Observatório da Imprensa, em parceria com a agência Volt Data Lab, divulgado nesta quarta-feira (21).



Guaribas, no interior do Piauí, tem população estimada em 4.489 pessoas e não possui nenhum jornal; desertos de notícia atingem principalmente cidades com menos de 11 mil habitantes no Nordeste - Lalo de Almeida - 19.out.2018/Folhapress


Diferentemente de levantamentos anteriores, divulgados em novembro de 2017 e em julho deste ano, pela primeira vez o Atlas inclui todas as mídias —jornais impressos, sites de notícias, emissoras de rádio e de televisão. Ao todo foram 12.467 veículos de comunicação mapeados.


Os desertos da notícia atingem especialmente municípios menores, com 11 mil habitantes ou menos, nas regiões Norte e Nordeste. No entanto há oito cidades com mais de 100 mil habitantes nessa lista. A maior delas é Nossa Senhora do Socorro (SE), vizinha à capital Aracaju, com quase 182 mil habitantes —a segunda mais populosa do estado.


Além de mostrar os desertos da notícia, o Atlas também mapeia os “quase desertos”, que representam 30% dos municípios brasileiros e abrigam 34 milhões de pessoas. São localidades que possuem apenas um ou dois veículos de comunicação e podem se tornar desertos caso eles deixem de existir.


Estão nos “quase desertos” 26 municípios com mais de 100 mil habitantes, sendo Belford Roxo (RJ) o maior deles, com cerca de 495 mil.


Desertos e quase desertos em cidades com mais de 100 mil habitantes


A Grande São Paulo tem nove representantes no clube dos “quase desertos”: Embu das Artes, Ferraz de Vasconcelos, Franco da Rocha, Arujá, Cajamar, Embu-Guaçu, Rio Grande da Serra, Biritiba-Mirim e Juquitiba. Já os municípios de São Lourenço da Serra, Vargem Grande Paulista e Pirapora do Bom Jesus, também na região metropolitana, não contam com veículos locais.


Considerados em conjunto, “desertos” e “quase desertos” da notícia englobam 64 milhões de pessoas em 4.508 municípios —cerca de 31% da população nacional e 80% dos municípios.


“É um dado que preocupa porque o jornalismo precisa funcionar no nível local também”, aponta Sergio Spagnuolo, editor da Volt.


Spagnuolo pondera ainda que o levantamento tem como objetivo mapear as regiões que possuem ou não veículos jornalísticos para ajudar a pensar em formas de fortalecer essa cobertura local – e por consequência, a própria democracia.


“Precisamos saber o que está acontecendo nas pequenas cidades, na saúde local, nas Câmaras de vereadores, até de questões cotidianas que vão orientar o voto delas futuramente também”.


O Atlas da Notícia é inspirado no projeto America’s Growing News Desert, da revista Columbia Journalism Review, que mapeou a presença de jornais nos Estados Unidos em meio às mudanças no modelo de negócios do jornalismo que levaram ao fechamento de diversos veículos.


O mapeamento identificou que, desde 2011, 81 veículos jornalísticos foram fechados no Brasil.


 


 

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