Como as plataformas podem diminuir o tumulto do debate digital

MEIO&MENSAGEM

Seis insights para retomar o caminho adequado na promoção de conversas construtivas no ambiente social online e superar o confronto gratuito


 


16 de agosto de 2019 - 6h59


Por Dan Gardner*


 


Ninguém precisa ser lembrado sobre como o discurso online pode ser tóxico. Se você está engajado ou só observando, a discussão é muitas vezes vil, catalisadora de estresse e apoiada por argumentos e lógicas parecidas com uma birra infantil. De acordo com uma pesquisa recente da Code and Theory, realizada on-line pela The Harris Poll entre mais de 2 mil adultos americanos, 70% deles acreditam que opiniões divergentes em conversas online são mais conflituosas do que construtivas.



 


Crédito: AdAge/ iStock


 


Os psicólogos sociais descobriram uma série de causas: a possibilidade de anonimato em sites como Twitter e Reddit faz com que as pessoas percam inibições. A falta de gatilhos visuais e verbais típicos da convivência física remove restrições comuns padronizadas pela boa educação. E bots vomitando comentários negativos aumentam a permissibilidade percebida do mau comportamento.


Talvez seja hora de voltar ao básico. O papel da mídia é informar, educar e oferecer novos pontos de vista — e deve se comprometer com isso. Debater é um passo necessário e positivo para expor as pessoas a novas perspectivas. Mas, em vez de promover um discurso saudável, as atuais plataformas de mídia têm desencorajado ativamente de várias maneiras:


 


Filtrando conteúdo para usuários


Os sites apresentam o que eles acham que você gostaria de ver com base no que você viu antes. O problema com isso é que, em uma corrida por engajamento, as plataformas digitais tendem a exagerar. Em vez de sugerir coisas que você possa gostar, juntamente com outros conteúdos mais aleatórios, eles eliminam todo o resto e criam feeds de notícias unidimensionais, com pontos de vista unidimensionais. A pesquisa da Code and Theory descobriu que 81% dos americanos acreditam que o conteúdo de notícias online tende a ser tendencioso em relação a um ponto de vista.


 


Conteúdo mal agregado


Agregadores como o Facebook fazem um trabalho ruim ao apresentar vários lados de uma questão. Eles tendem a tratar o conteúdo como uma mercadoria que pode ser retirada de qualquer lugar e colocada na frente de um leitor, em vez de uma experiência curada que pode contar uma história. Isso também resulta em feeds homogêneos sem opiniões alternativas. É preciso fazer justiça ao Facebook Journalism Project, que é um passo promissor e pelo menos reconhece o problema.


 


Participação social limitada nas plataformas


Os formatos narrativos na mídia são muitas vezes entediantes e estereotipados. De acordo com a pesquisa da Code and Theory, enquanto 40% dos millennials (23-38 anos) participam diariamente de conversas online sobre notícias e eventos atuais, menos de um quarto (17%) da Geração X (de 39 a 54 anos) e Boomers (55- 73) fazem o mesmo, somados. Isso é provável porque o engajamento social em sites de mídia é basicamente uma reflexão tardia e não uma ferramenta de narrativa.


 


Criando discurso positivo


Para sair desse atoleiro, deve-se mudar a maneira como essas plataformas funcionam. Mídia social é sobre a criação de novas formas de comunicação, o que impulsiona inovação no segmento. Por isso, pode facilmente promover o discurso positivo como facilitador do nosso estado atual de rancor.


Isso não tem sido uma prioridade até agora. A uma única ferramenta que comunica emoção e empatia criada pela tecnologia é o emoji. Esses ícones representam, naturalmente, mais do que apenas isso: é uma maneira totalmente nova de engajar e conectar. Mas também precisamos ser capazes de imitar o tom, a linguagem corporal e a familiaridade de uma maneira que traga verdadeira intimidade.


A maioria dos sites de mídia classifica os comentários usando um sistema primitivo no qual outros leitores votam em cima dos que gostam. Infelizmente, as pessoas que votam são uma subseção de qualquer audiência e tendem a preferir comentários mais nocivos e divisivos. Em vez disso, é hora de começar a usar inteligência artificial para promover comentários. Podemos construir sistemas inteligentes que fomentem intencionalmente o discurso, mas em um quadro social positivo.


 


Amigos X conhecidos


Podemos ainda redefinir o significado das amizades online. A mídia social supõe que você tem as mesmas opiniões que seus amigos e quer se envolver com as mesmas coisas. Mas isso traz vários problemas. Primeiro, os grupos sociais online são grandes demais para serem um tamanho de amostra apropriado para seus interesses. Em seguida, as pessoas até podem adquirir conhecimentos por meio digital em nível parecido com o de sua comunidade, mas apenas aqueles amizade sólida, verdadeira, e geralmente estruturada off-line tem a capacidade de promover honestidade entre as partes. A inovação nas mídias sociais precisa se concentrar em distinguir amigos reais — as pessoas que respeitamos e ouvimos — das pessoas que apenas sentávamos na carteira ao lado durante o Ensino Médio.


Por fim, os agregadores de notícias podem mudar a maneira de facilitar o discurso. Se as plataformas de mídia restringirem seu foco para serem mais significativos para um público, os agregadores podem entender e trabalhar nos sites para destacar um espectro completo de pontos de vista ao curar uma experiência em torno de um tópico.


 


O debate supera a discórdia


Nos últimos anos, temos assistido a uma queda maciça nas discussões positivas e a um aumento correspondente no arremesso de lama em todo o espectro político e social. Como resultado, devemos reorientar nossos esforços de inovação para promover trocas reais de pontos de vista.


Precisamos expor as pessoas a opiniões alternativas e restaurar um grau de aleatoriedade e sanidade para nossos feeds digitais. Acredito que isso precisa começar com sites e plataformas de mídia social, mas eventualmente precisa ser transmitido para todos.


 *Dan Gardner é cofundador e diretor-executivo de criatividade na Code and Theory e colaborador do AdAge

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